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A Escola e o Trânsito

outubro/2017 - José Roberto de Souza Dias

Aproxima-se o final do ano e, mais uma vez, o Poder Público isola-se em si mesmo, como se fosse um objeto a parte da realidade social brasileira. Insensível a uma das mais graves epidemias brasileiras, nada faz para salvar vidas e evitar que situações absolutamente previsíveis voltem a acontecer.

O discurso já está pronto, caso tais eventos ocorram, e todos já o conhecem e estão cansados de ouvir: a culpa é da imprudência do motorista, bebeu e dirigiu, não respeitou a sinalização, dirigiu sem ser habilitado, estava em alta velocidade, estava com sono no volante, conduziu várias horas seguidas e tomou algum tipo de droga para permanecer acordado, foi uma fatalidade, foi o tempo, a chuva, o vento, o sol e vai por aí afora.

De fato o condutor do veículo é um ponto crítico em movimento e, sobre este, deve se ter uma preocupação redobrada, certamente é o principal, mas longe de ser um único e isolado fator a compor os cenários de tal tipo de evento.
São tantos os elementos que compõem tais situações que extenuante seria enumerá-los em toda extensão. Mas, para exemplificar, citam-se alguns, tais como a formação dos motoristas, as condições gerais das vias, a precariedade da sinalização, os raios das curvas, os intermináveis buracos, a falta de manutenção, o policiamento e a fiscalização precárias e as condições dos veículo.

Duas circunstâncias não estão presentes, diretamente nos cenários de um acidente, mas são, entre tantos elementos, os mais fortes condicionantes. O primeiro destes é a corrupção, presente como um vírus na máquina pública brasileira e nas suas relações pouco republicanas com o mundo privado. Este assunto será tratado a posteriori em um artigo específico, pois esse é um tema que os brasileiros, graças a Lava Jato, acompanham como se fosse uma novela televisiva. Mais do que isso, conscientizam-se do poder do voto e preparam-se democraticamente para banir da vida pública os meliantes de todas as cores partidárias.

O segundo fator imbricado em tais acontecimentos de forma substancial é a falta de acesso da sociedade brasileira à educação contínua de qualidade.

Impossível se faz formar um condutor consciente de seus direitos, deveres e obrigações, se este não passou por uma mínima formação educacional. Muitos motoristas do Brasil são analfabetos funcionais, essa é a verdadeira realidade. Sabem assinar o nome, escrever algumas poucas palavras, mas foi-lhes negado o direito universal ao aprendizado pleno e ao raciocínio mínimo. Podem fazer contas simples, mas não conseguem muitas vezes compreender a relação existente entre peso, velocidade e raio de curva, por exemplo. O uso do celular torna-se dramático pois estão inabilitados a inferir sobre a fração de tempo gasta entre olhar para uma mensagem de texto, ou para o GPS, e voltar a atenção para pista, verificar os retrovisores e frear.

A falta de conhecimentos básicos impede a percepção de risco e o desempenho para dirigir com cidadania, de modo hábil e defensivo.

Manejar um veículo se aprende nos centros de formação de condutores, mas raciocinar e adquirir noções básicas de conhecimento se aprende na Escola. Nos últimos 15 anos as escolas se transformaram, em sua maioria, em centros de pregação ideológico partidária, preocupadas mais em formar ativistas do que cidadãos livres, honestos, decentes e eficazes. O resultado não podia ser outro.

Um pequeno exemplo é o que foi publicado no Aprendizagem em Foco, edição de 2017, com dados do IBGE e do MEC. Segundo esse estudo 1,3 milhão de jovens entre 15 e 17 anos deixaram a escola sem concluir os estudos e engrossam as fileiras dos analfabetos funcionais, muitos dos quais serão futuros condutores de veículos.
Tudo passa pela Escola, até mesmo a dramática situação do trânsito brasileiro.

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José Roberto de Souza Dias
Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP. Professor Adjunto da UFSC criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, foi Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – Denatran. Secretário Executivo do Gerat da Casa Civil da Presidência da República, Diretor de Planejamento da Secretaria de Transportes do Rio Grande do Sul, Presidente de Honra do Instituto Chamberlain de Estudos Avançados e do Núcleo de Articulação Voluntária - NAV, Membro do Conselho Deliberativo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito-Monatran, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc.

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