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É mais fácil ir a lua

julho/2019 - José Roberto de Souza Dias

O homem chegou à Lua há 50 anos e o Brasil ainda não conseguiu resolver problemas básicos de mobilidade urbana e trânsito.

Florianópolis – Capital de Santa Catarina – é um bom exemplo desse tipo de atraso. Uma das mais belas ilhas brasileiras, separada do continente por um mar de águas tranquilas e calmas, depende exclusivamente de duas pontes para passagem de veículos que mal cabem em suas pistas.

Bem, existe uma terceira ponte, hoje mais símbolo do que via. Teve sua construção iniciada em 14 de novembro de 1922 e três anos e meio depois - em 13 de maio de 1926 - foi oficialmente inaugurada.

O projeto de autoria dos engenheiros estadunidenses Robinson e Steinman, e todo o material nela empregado, foi trazido dos USA, ficou a cargo de uma equipe composta de dezenove técnicos norte-americanos e operários catarinenses.

Hercílio Pedro da Luz, na época governador, com essa obra e outras, inscreveu seu nome na História. Engenheiro formado na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, com aperfeiçoamento na Universidade de Liège, Bélgica, possuía o conhecimento técnico necessário para compreender as principais demandas de seu tempo.
A construção da ponte consolidava Florianópolis como capital do Estado, uma vez que outras cidades disputavam essa posição, como Lajes, argumentando que a Ilha ficava muito distante como centro administrativo e político.

Os florianopolitanos - 40 mil à época – tinham muito o que comemorar naquele 13 de maio de 1926, afinal livravam-se do monopólio das balsas para fazer a travessia entre a ilha e o continente. Serviço de baixa qualidade, que nem ao menos oferecia cobertura para proteger os usuários da chuva e do sol.

O Governador faleceu antes do fim de seu governo, em 20 de outubro de 1924, e não chegou a assistir à inauguração da ponte que levaria seu nome.

A Ponte Hercílio Luz correspondia às necessidades de sua época. Aos poucos foi sendo superada, e não conseguia mais suportar o volume de tráfego. Em 1982 foi suspensa a circulação de veículos por motivos de segurança. Em 1988 foi reaberta apenas para bicicletas, motos, carroças e pedestres. Em 1991 foi fechada, definitivamente para qualquer tipo de uso e permanece em reforma até os dias de hoje.

Pasmem! A ponte que foi construída em menos de 4 anos, está com noventa e seis anos de idade, mas como é comum no Brasil, aposentou-se por motivos de saúde aos 56 e está sem utilização viária há 34 anos, em uma reforma que se faz interminável.

Enquanto isso, a população da região metropolitana de Florianópolis, estimada em 1.096.476 habitantes, pelo censo IBGE/2018, continua sofrendo com as péssimas condições de mobilidade urbana, apesar do mar de águas calmas que liga o continente a este pedacinho de terra perdido no mar, como canta o poeta em seus versos imortais.

A História, essa Mestra da Vida, não cansa de mostrar seus exemplos. Passados noventa e cinco anos desde a morte do Governador Hercílio Pedro da Luz que não surge alguém com capacidade técnica, discernimento, sensibilidade e agudeza política para, como ele fez no passado, romper monopólios e oligopólios e voltar-se com coragem para resolver os graves problemas de circulação dessa que é a 21ª maior cidade do país.

Permanecer de costas para o mar é ignorância ou má fé. O máximo que se faz a cada gestão é pensar em uma nova ponte, quiçá um túnel, ou engessar as vias – que já são estreitas e superadas – com um corredor de ônibus que, para se mostrar moderninho ou tecnicamente correto, apelidam de BRT - Bus Rapid Transit/Transporte Rápido por Ônibus.

Em tempo de redes sociais, onde os jornais e televisões perderam sua importância como vasos comunicantes, é difícil mitigar a realidade. Quase na velocidade da luz as pessoas se informam e trocam considerações. Sabem perfeitamente quando uma medida não é tomada por receio e dependência de oligopólios, por pressão de grupos de interesse ou de uma vontade política claudicante, sempre de olho na próxima eleição.

Ao não dotar a cidade de um transporte marítimo público de qualidade beira-se quase a crime de irresponsabilidade. A via está pronta, o mar de águas calmas está aí para ninguém botar defeito.

Uma licitação pública é o que basta para a construção de terminais de multiuso onde aportariam modernas, seguras e privadas embarcações que poderiam contar com vários pontos de atracagem ao longo da baia. O ônibus, ao contrário do que se pensa, ampliaria seu papel e lucros com o sistema ágil de transporte que se inaugura. Sobraria até uma beira para os que só se preocupam com a próxima eleição, pois é mais rápido montar esse sistema do que construir pontes, viadutos e túneis.

Ao insistir em deixar como está, para ver como é que fica, a conclusão que se tira é que ir a Lua é mais fácil que atravessar uma baía de águas calmas.

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José Roberto de Souza Dias
Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, foi Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – Denatran, Secretário-Executivo do Gerat da Casa Civil da Presidência da República, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Two Flags Post – Publisher & Editor-in-Chief.

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