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E O TRÂNSITO, CANDIDATO?
25 de Agosto, de 2026
Artigo
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By JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS
E O TRÂNSITO, CANDIDATO?

Faltam dois meses para as eleições gerais. Os candidatos falam de economia, saúde, segurança, emprego, educação, impostos, inflação, corrupção. Fazem promessas, apresentam números, percorrem cidades, distribuem abraços e gravam vídeos. Há um assunto, porém, que quase não aparece. Pode ser porque não dê votos ou porque, de tão presente, nos acostumamos com ele. Pior seria admitir que milhares de brasileiros mortos todos os anos já passaram a fazer parte da paisagem. Estou falando do trânsito.

Durante muitos anos ouvi do Professor Dr. Dario Birolini, um dos grandes nomes brasileiros da cirurgia do trauma, uma maneira de encarar essa tragédia que nunca esqueci. O trauma é uma doença, e aquilo que continuamos chamando comodamente de “acidente de trânsito” precisa ser visto como uma moléstia que pode ser estudada, prevenida, tratada e controlada, como se faz com uma epidemia. A palavra acidente ajuda a esconder nossa responsabilidade, porque sugere obra do acaso, fatalidade, alguma coisa que aconteceu porque tinha de acontecer. Mas não há nada de inevitável num motociclista que morre em alta velocidade, num pedestre atropelado sobre a faixa, numa criança morta porque alguém atravessou um sinal vermelho ou numa família destruída por um motorista embriagado. Existem causas perfeitamente identificáveis, comportamentos de risco e omissões que poderiam ser evitadas. E, se podemos identificar as causas, podemos também trabalhar na prevenção.

Os números de acidentes no Brasil deveriam ser suficientes para colocar o assunto no centro da campanha eleitoral. Em 2024, segundo os dados oficiais reportados pelos estados ao Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, 26.138 pessoas morreram. São 71 mortos por dia. Quase três cidadãos por hora. Enquanto você almoça, trabalha, dorme ou lê este jornal, a conta continua correndo. E não estou falando dos feridos, dos traumas que deixam marcas para toda a vida, das famílias que, de uma hora para outra, precisam reorganizar sua existência para cuidar de alguém que saiu de casa caminhando e voltou numa cadeira de rodas. Também não estou falando apenas dos bilhões consumidos por hospitais, UTIs, cirurgias, reabilitação e Previdência. Por trás de cada número há uma vida interrompida ou profundamente transformada. Estou falando de gente.

É impossível discutir essa realidade hoje sem falar das motocicletas. Elas se tornaram instrumento de trabalho de milhões de brasileiros e são indispensáveis à mobilidade de nossas cidades. O motociclista não pode ser transformado em inimigo. Ao contrário: é justamente porque ele trabalha, sustenta sua família e está muito mais exposto que precisa ser protegido. Mas proteger não significa aceitar a transformação das ruas numa terra sem lei. Em São Paulo, 483 motociclistas morreram em 2024. Foi o maior número já registrado na cidade. Pense nisso: 483 vidas em uma única cidade, em um único ano.

Quem anda diariamente por São Paulo não precisa de estatística para perceber que alguma coisa saiu do controle. Basta chegar a hora do almoço ou do jantar. A pressão das entregas transforma ruas e avenidas numa disputa contra o relógio. Motos passam entre automóveis, surgem pela direita e pela esquerda, avançam sinais. E agora dividem espaço com bicicletas elétricas e outros equipamentos de mobilidade que chegaram às cidades muito mais rapidamente do que nossa capacidade de os fiscalizar e de educar seus usuários. O silêncio dos veículos elétricos acrescenta outro elemento de risco, especialmente para idosos, crianças e pessoas com deficiência visual. Calçadas, que deveriam ser o último território seguro do pedestre, passaram em muitos lugares a ser disputadas com veículos. Contramão virou atalho. Semáforo parece recomendação. Faixa de pedestres perdeu autoridade. Não, isso não é modernidade. Isso é desordem.

A Avenida Paulista talvez seja o retrato mais doloroso dessa transformação. O cartão-postal da maior cidade brasileira deveria demonstrar civilidade, respeito e convivência entre pedestres, ciclistas, motociclistas, automóveis e transporte coletivo. Em determinados momentos, demonstra justamente o contrário. E o cidadão assiste a infrações cometidas diante dos próprios agentes públicos sem compreender por que a lei deixou de ser lei. Não precisamos inventar outra legislação. Temos um Código de Trânsito Brasileiro. Precisamos fazer com que seja respeitado.

E aqui está uma questão que gostaria de dirigir diretamente aos candidatos que dentro de poucas semanas pedirão nosso voto: qual é o seu projeto para isso? Não quero ouvir apenas que é preciso “educar o motorista”. Essa frase já foi repetida milhares de vezes. Quero saber como o próximo governo pretende reduzir mortes. Que metas assumirá? Como pretende fiscalizar? O que fará pelos motociclistas? Como enfrentará a tragédia das motos utilizadas profissionalmente? Como regulamentará e fiscalizará a nova mobilidade elétrica? Como protegerá o pedestre? Como integrará saúde, educação, engenharia, fiscalização e segurança pública?

Outros países demonstraram que as mortes no trânsito não constituem uma condenação inevitável das sociedades modernas. Em 2024, a Noruega registrou 16 mortes no trânsito por milhão de habitantes; a Suécia, 20; e a Dinamarca, 24. E o Brasil? Aproximadamente 123. Quase oito vezes a taxa norueguesa e mais de seis vezes a sueca. Não estamos, portanto, diante de uma fatalidade comum a todos os países, mas de uma realidade que outras sociedades conseguiram enfrentar muito melhor do que nós. Elas não chegaram a esses resultados rezando para que os acidentes diminuíssem. Construíram políticas de Estado, estabeleceram metas, fiscalizaram, educaram, investiram em engenharia e, sobretudo, decidiram que perder milhares de vidas no trânsito todos os anos não era aceitável.

A Organização Mundial da Saúde estima atualmente que 1,16 milhão de pessoas morram todos os anos nas vias do planeta. Entre 20 e 50 milhões sofrem ferimentos. Mais da metade dos mortos está justamente entre os mais vulneráveis: pedestres, ciclistas e motociclistas. A meta internacional é reduzir pela metade as mortes e lesões até 2030. Há uma diferença fundamental entre países que avançaram e aqueles que continuam contando cadáveres: eles compreenderam que o erro humano existirá sempre, mas o sistema de trânsito não precisa condenar uma pessoa à morte por causa desse erro. Essa é a essência de uma política moderna de segurança viária.

Também sabemos que funciona. A própria São Paulo oferece uma demonstração interessante. Nos trechos onde foi implantada a Faixa Azul, houve redução expressiva das mortes de motociclistas entre 2023 e 2024. Quando há engenharia, estudo, decisão e acompanhamento, vidas são preservadas. Portanto, não aceito mais a palavra inevitável.

Depois de tantos anos trabalhando com trânsito e segurança viária, já vi campanhas começarem e terminarem, programas nascerem e desaparecerem, autoridades se sucederem e estatísticas serem apresentadas em seminários. Vi também avanços extraordinários quando houve decisão política verdadeira. Por isso continuo escrevendo. Não por obsessão com o trânsito, mas porque cada número que aparece numa tabela teve nome, família, endereço, projetos e alguém esperando que voltasse para casa.

Talvez alguns leitores pensem: lá vem ele outra vez falar de trânsito. Venho, sim. E continuarei vindo enquanto tratarmos como acidente aquilo que pode ser evitado. Enquanto aceitarmos que uma mãe receba a notícia de que seu filho não voltará para casa porque alguém resolveu que o sinal vermelho era opcional. Enquanto o entregador tiver de escolher entre sua segurança e o relógio do aplicativo. Enquanto o pedestre tiver medo da própria calçada. Enquanto autoridades assistirem passivamente à transformação da infração em costume.

Mas, desta vez, há uma eleição diante de nós. Por isso não quero dirigir estas últimas palavras aos motoristas, motociclistas ou pedestres. Quero dirigi-las a quem está pedindo nosso voto. Senhor candidato, antes de me dizer o que pretende fazer pelo Brasil, responda uma pergunta muito simples: quantos brasileiros precisam morrer no trânsito para que o senhor considere isso uma prioridade de governo?

Porque uma epidemia que sabemos prevenir e não prevenimos deixa de ser apenas uma tragédia. Torna-se uma escolha. E toda escolha tem responsáveis.

JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS

Jornalista, Mtb 0083569 / SP/BR, Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Membro Titular da Academia Brasileira de História, Comendador da Veneranda Ordem dos Cavaleiros da Concórdia, foi Prof. Adj. Dr. da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, ex-Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN, Secretário-Executivo do GERAT da Casa Civil da Presidência da República, Conselheiro Consultivo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito – MONATRAN e TWO FLAGS POST – Publisher & Editor-in-Chief.