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O que um melão de R$ 40 tem a ver com o seu voto?
23 de Julho, de 2026
Artigo
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By JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS
O que um melão de R$ 40 tem a ver com o seu voto?

Como o preço dos alimentos na feira, o custo do combustível e o caos no trânsito brasileiro estão diretamente amarrados à nossa escolha na urna.

Meu amigo leitor,

Há algum tempo venho pensando em escrever estas linhas. Dias atrás, caminhando por uma feira em São Paulo, parei diante de um melão que custava quarenta reais. Confesso que minha primeira reação foi exatamente a mesma que provavelmente seria a sua: achei um absurdo. Continuei andando, mas aquela pequena etiqueta de preço insistiu em me acompanhar pelo restante da manhã. Percebi que já não estava pensando no melão. Estava pensando no Brasil.

Não escrevo isso porque deseje discutir política, muito menos influenciar o voto de quem quer que seja. Depois de tantos anos de vida, aprendi a respeitar profundamente a liberdade de consciência de cada cidadão. O voto é um ato muito pessoal. Mas justamente por respeitá-lo é que gostaria de compartilhar uma preocupação que, confesso, cresce a cada eleição.

Tenho a impressão de que nós, brasileiros, passamos tempo demais discutindo os candidatos e tempo de menos discutindo aquilo que eles pretendem fazer quando assumirem o governo. É natural que se fale das pesquisas, dos debates, das alianças, das qualidades e dos defeitos de cada um. Tudo isso faz parte da democracia. O que me parece estranho é perceber que quase nunca dedicamos a mesma atenção ao programa de governo. E, no entanto, é ele que continuará existindo quando os palanques forem desmontados, as bandeiras recolhidas e a campanha terminar.

Talvez você esteja se perguntando por que trazer a cena da feira para um jornal voltado ao trânsito, ao transporte e à mobilidade. A resposta é simples: poucos setores sentem tanto os efeitos de um bom ou de um mau governo quanto o nosso. O preço daquele melão carrega o custo do combustível, dos pedágios, da manutenção dos caminhões, dos seguros, dos impostos e, principalmente, dos juros. Eles quase nunca aparecem nos discursos de campanha, mas surgem, silenciosamente, em tudo o que compramos e no modo como nos deslocamos.

Basta olhar em volta. As estradas não melhoram por acaso. Os congestionamentos não surgem aleatoriamente. As obras que começam e não terminam, a falta de investimentos, a deficiência da logística, o transporte coletivo que não atende a população e a violência que ainda marca o trânsito brasileiro são consequências de decisões tomadas muito antes de chegarem ao nosso dia a dia.

Quando o dinheiro custa caro, produzir custa caro. Transportar custa caro. Investir custa caro. No fim da cadeia, viver custa caro. Essa conta acaba chegando à família que vai ao supermercado, ao pequeno empresário, ao agricultor, ao caminhoneiro, ao comerciante e ao trabalhador que faz contas para fechar o mês. A economia não é uma teoria distante. Ela entra diariamente pela porta da nossa casa e se apresenta em cada buraco na rodovia.

É por isso que, sempre que ouço promessas de crescimento econômico, redução do custo de vida, melhoria da infraestrutura ou expansão dos investimentos, procuro controlar o entusiasmo e fazer um exercício muito simples: tentar descobrir de que maneira tudo isso será realizado. Não porque desconfie de todos os candidatos, mas porque aprendi que administrar um país exige muito mais do que boas intenções. Exige planejamento, prioridades, escolhas difíceis e responsabilidade.

É justamente aí que ganha importância o programa de governo. Não como um documento elaborado apenas para cumprir uma exigência legal, mas como um compromisso assumido diante da sociedade. Um programa sério permite ao eleitor compreender as prioridades de um futuro governo e, mais importante ainda, acompanhar se aquilo que foi prometido está realmente sendo cumprido.

No nosso setor essa lógica é quase intuitiva. Não existe logística eficiente sem planejamento. Não existe mobilidade de qualidade sem responsabilidade administrativa. Não existe infraestrutura moderna construída apenas com discursos. O transporte é muito mais do que deslocamento. Ele movimenta a economia, aproxima pessoas, reduz custos, gera competitividade e influencia diretamente o preço de praticamente tudo o que consumimos.

Talvez tenha chegado o momento de fazermos um pequeno ajuste na forma como acompanhamos as campanhas eleitorais. Continuemos observando os candidatos, mas passemos a olhar com a mesma atenção para os programas que apresentam. Afinal, governos passam quatro anos tomando decisões todos os dias, e são essas decisões, muito mais do que os discursos de campanha, que acabam aparecendo nas estradas, nas cidades, na economia e na vida de cada um de nós.

Daqui a algumas semanas estaremos novamente diante da urna. O voto continuará sendo livre, como deve ser. Apenas gostaria que ele fosse também cada vez mais consciente. Se esta conversa fizer algum sentido para você, antes de confirmar sua escolha reserve alguns minutos para conhecer o programa de governo do candidato em quem pretende votar. Leia, reflita, concorde ou discorde, mas faça isso com a serenidade de quem sabe que as urnas permanecerão abertas por apenas algumas horas, enquanto as consequências da nossa decisão permanecerão presentes durante os quatro anos seguintes.

Naquele dia, saí da feira convencido de que o preço de um melão pode ensinar muito mais sobre um país do que muitos discursos de campanha. Talvez o futuro do Brasil comece exatamente aí: na disposição de cada eleitor em fazer as perguntas certas antes de apertar a tecla de confirmação.

JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS

Jornalista, Mtb 0083569 / SP/BR, Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Membro Titular da Academia Brasileira de História, Comendador da Veneranda Ordem dos Cavaleiros da Concórdia, foi Prof. Adj. Dr. da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, ex-Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN, Secretário-Executivo do GERAT da Casa Civil da Presidência da República, Conselheiro Consultivo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito – MONATRAN e TWO FLAGS POST – Publisher & Editor-in-Chief.