Estarrecida, a sociedade brasileira assiste ao desfile de escândalos ao longo deste primeiro quarto do século XXI, cada qual aparentemente pior que o anterior. Todos possuem um ponto em comum: envolvem autoridades e atingem indistintamente os poderes da República, desde seus segmentos básicos até os mais elevados escalões.
Os fatos são de conhecimento público e dispensam apresentações. No primeiro governo Lula (2003–2006), tivemos o Mensalão, os Correios e os Sanguessugas; no segundo (2007–2010), os cartões corporativos e a crise da Casa Civil. Vieram os governos Dilma (2011–2016), com o Petrolão, a Lava Jato e a Odebrecht; Temer (2016–2018), com JBS e Geddel; e Bolsonaro (2019–2022), com o orçamento secreto e irregularidades no MEC.
Chegamos ao terceiro governo Lula (2023–2026), com as fraudes bilionárias do INSS e o chamado roubo dos velhinhos, os desvios investigados de emendas parlamentares e o escândalo do Banco Master, com ramificações no BRB e suspeitas que alcançam agentes políticos e integrantes do Judiciário.
Mudam os governantes, alternam-se os partidos, sucedem-se as promessas de moralização, mas os escândalos continuam. O cidadão brasileiro permanece diante da mesma realidade: o dinheiro público, que deveria servir à população, continua exposto a interesses escusos que percorrem a máquina estatal.
Mas o que têm a corrupção e as eleições gerais a ver com o trânsito, o transporte e a mobilidade urbana? Tudo! É precisamente por isso que esta coluna, em um jornal dedicado à defesa da vida, à segurança viária e ao direito de ir e vir, não pode permanecer alheia aos grandes problemas nacionais.
Se a dilapidação do patrimônio público compromete nossas estradas, outro pilar essencial vem sendo sistematicamente esburacado: a liberdade. Como observaram os clássicos da historiografia, de Raymundo Faoro a Oliveira Vianna, a trajetória política brasileira sempre flertou com o autoritarismo, restando à democracia breves e frágeis exceções.
O passado de nossa República, marcado por regimes que calaram o debate público, parece retornar disfarçado de "defesa do Estado Democrático de Direito". A divergência política passa a ser tratada como ameaça jurídica, enquanto o dissenso é empurrado para as margens. Para quem defende o direito de ir e vir, vale o alerta: de nada adianta garantir o livre trânsito dos corpos se as ideias são interditadas pela censura. A liberdade de expressão é indispensável para fiscalizar os poderosos e exigir o país que queremos encontrar do lado de fora de nossas casas.
Essa realidade cobra seu preço no desenvolvimento nacional. Enquanto nações desenvolvidas e emergentes avançam na revolução tecnológica e na criação de empregos de alto valor, o Brasil compromete seu futuro pela falta crônica de projetos de Estado. O que deveria ser remédio temporário contra a miséria tornou-se plataforma permanente de poder: institucionalizou-se a exaltação da "bolsa-migalha", política que, em vez de emancipar pela educação e pelo trabalho digno, mantém o indivíduo dependente de um sistema sem horizonte.
Esse diagnóstico não decreta o fim da linha, mas convoca à reflexão sobre o processo eleitoral. O voto não é mero rito burocrático: é o momento em que a sociedade pode lembrar aos ocupantes do poder quem detém a verdadeira soberania nacional.
O poder supremo não emana de tribunais, de decisões autoritárias ou de oligarquias partidárias; pertence, por direito inalienável, ao cidadão comum. Há uma esperança que resiste em cada brasileiro que acorda cedo, enfrenta o transporte precário e ainda acredita na decência. Ao depositarmos nossa escolha, retomamos as rédeas do destino, afirmando que o Brasil não aceita o cabresto do autoritarismo nem a sina da mediocridade. O futuro do lado de fora de nossas casas começa na coragem das escolhas que fazemos do lado de dentro da cabine de votação.
Jornalista, Mtb 0083569 / SP/BR, Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Membro Titular da Academia Brasileira de História, Comendador da Veneranda Ordem dos Cavaleiros da Concórdia, foi Prof. Adj. Dr. da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, ex-Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN, Secretário-Executivo do GERAT da Casa Civil da Presidência da República, Conselheiro Consultivo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito – MONATRAN e TWO FLAGS POST – Publisher & Editor-in-Chief.