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O Voto, a Mobilidade e o Resgate da Liberdade
27 de Setembro, de 2026
Artigo
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By JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS
O Voto, a Mobilidade e o Resgate da Liberdade

Estarrecida, a sociedade brasileira assiste ao desfile de escândalos ao longo deste primeiro quarto do século XXI, cada qual aparentemente pior que o anterior. Todos possuem um ponto em comum: envolvem autoridades e atingem indistintamente os poderes da República, desde seus segmentos básicos até os mais elevados escalões.

Os fatos são de conhecimento público e dispensam apresentações. No primeiro governo Lula (2003–2006), tivemos o Mensalão, os Correios e os Sanguessugas; no segundo (2007–2010), os cartões corporativos e a crise da Casa Civil. Vieram os governos Dilma (2011–2016), com o Petrolão, a Lava Jato e a Odebrecht; Temer (2016–2018), com JBS e Geddel; e Bolsonaro (2019–2022), com o orçamento secreto e irregularidades no MEC.

Chegamos ao terceiro governo Lula (2023–2026), com as fraudes bilionárias do INSS e o chamado roubo dos velhinhos, os desvios investigados de emendas parlamentares e o escândalo do Banco Master, com ramificações no BRB e suspeitas que alcançam agentes políticos e integrantes do Judiciário.

Mudam os governantes, alternam-se os partidos, sucedem-se as promessas de moralização, mas os escândalos continuam. O cidadão brasileiro permanece diante da mesma realidade: o dinheiro público, que deveria servir à população, continua exposto a interesses escusos que percorrem a máquina estatal.

Mas o que têm a corrupção e as eleições gerais a ver com o trânsito, o transporte e a mobilidade urbana? Tudo! É precisamente por isso que esta coluna, em um jornal dedicado à defesa da vida, à segurança viária e ao direito de ir e vir, não pode permanecer alheia aos grandes problemas nacionais.

Se a dilapidação do patrimônio público compromete nossas estradas, outro pilar essencial vem sendo sistematicamente esburacado: a liberdade. Como observaram os clássicos da historiografia, de Raymundo Faoro a Oliveira Vianna, a trajetória política brasileira sempre flertou com o autoritarismo, restando à democracia breves e frágeis exceções.

O passado de nossa República, marcado por regimes que calaram o debate público, parece retornar disfarçado de "defesa do Estado Democrático de Direito". A divergência política passa a ser tratada como ameaça jurídica, enquanto o dissenso é empurrado para as margens. Para quem defende o direito de ir e vir, vale o alerta: de nada adianta garantir o livre trânsito dos corpos se as ideias são interditadas pela censura. A liberdade de expressão é indispensável para fiscalizar os poderosos e exigir o país que queremos encontrar do lado de fora de nossas casas.

Essa realidade cobra seu preço no desenvolvimento nacional. Enquanto nações desenvolvidas e emergentes avançam na revolução tecnológica e na criação de empregos de alto valor, o Brasil compromete seu futuro pela falta crônica de projetos de Estado. O que deveria ser remédio temporário contra a miséria tornou-se plataforma permanente de poder: institucionalizou-se a exaltação da "bolsa-migalha", política que, em vez de emancipar pela educação e pelo trabalho digno, mantém o indivíduo dependente de um sistema sem horizonte.

Esse diagnóstico não decreta o fim da linha, mas convoca à reflexão sobre o processo eleitoral. O voto não é mero rito burocrático: é o momento em que a sociedade pode lembrar aos ocupantes do poder quem detém a verdadeira soberania nacional.

O poder supremo não emana de tribunais, de decisões autoritárias ou de oligarquias partidárias; pertence, por direito inalienável, ao cidadão comum. Há uma esperança que resiste em cada brasileiro que acorda cedo, enfrenta o transporte precário e ainda acredita na decência. Ao depositarmos nossa escolha, retomamos as rédeas do destino, afirmando que o Brasil não aceita o cabresto do autoritarismo nem a sina da mediocridade. O futuro do lado de fora de nossas casas começa na coragem das escolhas que fazemos do lado de dentro da cabine de votação.

JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS

Jornalista, Mtb 0083569 / SP/BR, Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Membro Titular da Academia Brasileira de História, Comendador da Veneranda Ordem dos Cavaleiros da Concórdia, foi Prof. Adj. Dr. da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, ex-Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN, Secretário-Executivo do GERAT da Casa Civil da Presidência da República, Conselheiro Consultivo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito – MONATRAN e TWO FLAGS POST – Publisher & Editor-in-Chief.