Os números mais recentes sobre mortes no trânsito no Brasil expõem, mais uma vez, um cenário que já deixou de ser novidade e passou a ser rotina trágica: o país voltou a registrar crescimento contínuo de óbitos e internações, alcançando o maior patamar desde 2019. São mais de 38 mil vidas perdidas em 2024, segundo dados do DATASUS, com impacto direto sobre o SUS, sobre a economia e, principalmente, sobre famílias inteiras que convivem com uma epidemia silenciosa nas ruas e rodovias.
O dado mais duro talvez não esteja apenas no volume absoluto, mas na constância da piora. Pelo sexto ano consecutivo, a mortalidade no trânsito cresce, revelando que as políticas públicas adotadas até aqui não foram capazes de reverter uma tendência que se consolida ano após ano. O aumento da taxa de mortes de 15,8 para 18 por 100 mil habitantes escancara um problema estrutural que não pode mais ser tratado como acidente estatístico, mas como falha sistêmica de gestão pública.
A realidade também evidencia um recorte social preocupante: a maioria das vítimas são homens em idade produtiva, entre 25 e 54 anos, o que significa não apenas perda de vidas, mas também de força de trabalho, renda e estabilidade social. Ao mesmo tempo, o crescimento expressivo das internações de motociclistas no SUS revela um sistema que absorve diariamente as consequências de um trânsito cada vez mais perigoso, sem receber, na mesma proporção, respostas efetivas do poder público.
Diante desse cenário, o MONATRAN - Movimento Nacional de Educação no Trânsito tem sido enfático ao defender que o Brasil precisa abandonar a lógica de ações pontuais e campanhas sazonais, e assumir de forma definitiva políticas públicas permanentes voltadas à preservação da vida. Para a entidade, não há solução possível sem continuidade, planejamento e prioridade real ao tema, com educação para o trânsito integrada às políticas de Estado e não apenas como discurso institucional.
A crítica do setor é direta: falta comprometimento do governo federal e dos órgãos responsáveis pela segurança viária. Apesar da gravidade dos números, ainda se observa uma atuação fragmentada, reativa e pouco coordenada entre as esferas de gestão. Em muitos casos, as ações não passam de respostas imediatas a crises, sem estratégia consistente de longo prazo.
Também chama atenção a baixa visibilidade de estruturas que deveriam liderar esse enfrentamento. Secretarias e órgãos nacionais de trânsito, que deveriam ocupar papel central na formulação e condução de políticas de redução de mortes, aparecem pouco no debate público e têm atuação percebida como tímida diante da dimensão do problema. A ausência de protagonismo institucional contribui para a sensação de descontinuidade e enfraquece a capacidade de articulação nacional.
Enquanto isso, os dados seguem subindo, pressionando hospitais, ampliando gastos públicos e revelando uma contradição evidente: o Brasil produz diagnósticos cada vez mais precisos sobre a violência no trânsito, mas ainda falha em transformar informação em ação estruturada. Para nós do MONATRAN, o ponto central não é a falta de conhecimento, mas a falta de decisão política consistente para salvar vidas.
No fim, o que os números mostram é um país que ainda não assumiu plenamente o trânsito como prioridade de saúde pública. E enquanto essa mudança não acontecer de forma concreta, com políticas permanentes e coordenação efetiva, as estatísticas continuarão sendo atualizadas — sempre com o mesmo significado: vidas interrompidas por um problema que já deveria ter sido enfrentado com mais seriedade.
Presidente do MONATRAN - Movimento Nacional de Educação no Trânsito