Toda iniciativa que amplia oportunidades de trabalho e renda merece ser analisada com responsabilidade. A Medida Provisória nº 1.366/2026, ao criar uma linha de crédito para que entregadores, motofretistas, mototaxistas e motociclistas de aplicativos adquiram motocicletas e bicicletas elétricas, atende a uma demanda real de milhares de brasileiros que dependem desses veículos para sustentar suas famílias.
O problema não está no crédito. Está no que ficou de fora da política pública.
Enquanto o governo facilita o acesso à compra de motocicletas, o Brasil vive uma silenciosa epidemia de mortes envolvendo motociclistas. Hoje, eles representam o grupo mais vulnerável do trânsito brasileiro. Os dados do Atlas da Violência são contundentes: somente em 2024, mais de 15 mil motociclistas perderam a vida, respondendo por mais de 40% de todas as mortes no trânsito. Não estamos diante de uma estatística. Estamos falando de trabalhadores que saem de casa para garantir o sustento e não conseguem voltar para suas famílias.
A motocicleta deixou de ser apenas um meio de transporte. Tornou-se ferramenta de trabalho, especialmente em um mercado impulsionado pelos aplicativos de entrega e mobilidade. Essa transformação exige que o poder público enxergue o tema de forma muito mais ampla. Não basta estimular a renovação da frota ou ampliar o acesso ao financiamento. É indispensável criar condições para que esses profissionais trabalhem com segurança.
Uma política séria para os motociclistas precisa combinar crédito com proteção. Isso significa investir em infraestrutura viária adequada, fiscalização eficiente, educação permanente para o trânsito, qualificação profissional, campanhas de conscientização e revisão das condições de trabalho impostas por um modelo que frequentemente recompensa a velocidade em detrimento da segurança.
Infelizmente, essa visão integrada continua ausente.
Nos últimos anos, temos assistido a decisões que caminham na direção oposta da prevenção. Exigências de formação foram flexibilizadas, investimentos em segurança viária seguem insuficientes e falta coordenação entre os diversos órgãos responsáveis pela mobilidade. Enquanto isso, a frota de motocicletas cresce, assim como o número de vítimas.
Não podemos continuar tratando a mobilidade apenas sob a ótica econômica. A expansão da frota precisa vir acompanhada de políticas públicas permanentes voltadas à preservação da vida. Caso contrário, estaremos financiando não apenas veículos, mas também a ampliação da exposição ao risco.
No MONATRAN defendemos que desenvolvimento e segurança devem caminhar juntos. Incentivar o trabalho é fundamental, mas proteger quem trabalha é uma obrigação do Estado. Nenhuma política de mobilidade será verdadeiramente bem-sucedida se ignorar o principal indicador de sua eficiência: quantas vidas ela consegue preservar.
Facilitar o acesso à motocicleta pode representar uma oportunidade para milhares de brasileiros. Mas essa oportunidade perde seu valor quando não é acompanhada de medidas concretas capazes de reduzir os acidentes e salvar vidas.
O verdadeiro desafio não é colocar mais motos nas ruas. É garantir que cada motociclista tenha condições de voltar para casa em segurança ao final de mais um dia de trabalho.
Presidente do MONATRAN - Movimento Nacional de Educação no Trânsito