O Brasil encerrou 2024 com 37.150 mortes no trânsito. O número escancara aquilo que há muito tempo se tenta suavizar com discursos otimistas: nunca houve uma mudança estrutural real. Houve oscilações estatísticas, revisões metodológicas, maquiagem de números... mas não uma transformação consistente e sustentável na segurança viária.
Fala-se em “avanços” no passado recente, mas a verdade é que o país jamais consolidou uma política sólida e permanente de redução de mortes. Não criamos uma cultura de segurança. Não estruturamos uma política nacional contínua. Não fortalecemos a formação de condutores como deveríamos - aliás, muito pelo contrário...E enquanto o mundo avança, o Brasil insiste em patinar.
Estamos na 2ª Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito (2021–2030), proclamada pela Organização das Nações Unidas e pela Organização Mundial da Saúde, com uma meta clara: reduzir em 50% as mortes e lesões até 2030. Países que tratam o tema com seriedade trabalham com metas, monitoramento, transparência e políticas integradas.
O Brasil, porém, vai na contramão.
Em vez de fortalecer o sistema, flexibiliza. Em vez de consolidar critérios técnicos, relativiza. Em vez de liderar uma estratégia nacional robusta, mantém uma atuação fragmentada. O governo federal e a Secretaria Nacional de Trânsito deveriam coordenar uma política firme de redução de mortes, mas o que se vê é descaso, ausência de protagonismo e falta de direção clara.
Os números falam por si. Motociclistas continuam sendo as principais vítimas. Pedestres e ciclistas seguem desprotegidos. A violência viária atinge, sobretudo, os mais vulneráveis. Isso não é acaso. É consequência de omissão, de decisões políticas que priorizam conveniência em vez de prevenção.
Trinta e sete mil mortes não são apenas um indicador. São 37 mil histórias interrompidas. São 37 mil fracassos coletivos. E quando o Estado não assume sua responsabilidade de educar, fiscalizar e estruturar políticas permanentes, ele contribui para a perpetuação do problema.
A chamada “década perdida” talvez seja ainda mais grave: não é apenas o tempo que se foi. É a oportunidade desperdiçada de transformar o trânsito brasileiro em um espaço mais seguro e humano. Enquanto o mundo trabalha para reduzir mortes pela metade, nós seguimos discutindo flexibilizações e comemorando pequenas variações estatísticas.
Sem compromisso real, transparência e política pública séria, continuaremos produzindo números e naturalizando tragédias.
Presidente do MONATRAN - Movimento Nacional de Educação no Trânsito