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FHC, a Chama da Vida e o Brasil que Sonhou com a Paz no Trânsito
24 de Junho, de 2026
Artigo
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By JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS
FHC, a Chama da Vida e o Brasil que Sonhou com a Paz no Trânsito

Uma homenagem aos 95 anos do Presidente que colocou a defesa da vida na agenda nacional

Ao completar 95 anos, Fernando Henrique Cardoso continua sendo lembrado principalmente pelo Plano Real e pela estabilidade econômica que devolveu previsibilidade à vida dos brasileiros. É uma associação justa. Mas existe uma dimensão menos lembrada de seu legado que também merece ser recordada: o período em que a defesa da vida no trânsito passou a ocupar lugar relevante na agenda nacional.

Os mais jovens talvez tenham dificuldade para imaginar o cenário dos anos noventa. Milhares de brasileiros morriam anualmente nas ruas e estradas do país, enquanto outros tantos carregavam sequelas físicas e emocionais permanentes. Apesar da gravidade do problema, pouco se falava em educação para o trânsito, formação de condutores ou mobilização social em defesa da vida. A violência viária era frequentemente tratada como uma fatalidade inevitável.

Foi nesse contexto que surgiu o Programa PARE. Concebido para reduzir acidentes e preservar vidas, rapidamente ultrapassou os limites de uma iniciativa governamental e transformou-se em uma causa nacional. Escolas, universidades, entidades civis, empresas, órgãos públicos, profissionais de saúde, forças policiais, educadores, jornalistas e lideranças comunitárias passaram a compartilhar a convicção de que o trânsito não era apenas uma questão técnica, mas um problema humano que exigia resposta coletiva. A decisão política de colocar o tema entre as prioridades do governo foi decisiva para que esse movimento alcançasse dimensão nacional.

Mais importante do que a mobilização em si foram os resultados alcançados. As estatísticas da época registraram redução significativa da mortalidade em relação à tendência observada nos anos anteriores. O mérito não pertenceu a uma única medida, mas à combinação de educação, fiscalização, aperfeiçoamento da legislação, campanhas permanentes de conscientização e participação ativa da sociedade. Houve vidas preservadas, famílias poupadas da dor da perda e uma mudança de comportamento perceptível em amplos setores da população. A melhor demonstração do acerto daquela estratégia não está nos discursos produzidos à época, mas nos números que ela ajudou a modificar.

Entre aqueles que contribuíram para ampliar a compreensão da gravidade do problema estavam profissionais da medicina que conviviam diariamente com as consequências dos acidentes. O Professor Doutor Dário Birolini, referência nacional na cirurgia do trauma, e a Dra. Julia Greve, do Instituto de Ortopedia e Traumatologia da USP, ajudaram a mostrar que a tragédia do trânsito não terminava no local do acidente. Ela prosseguia nos centros cirúrgicos, nos processos de reabilitação e na difícil reconstrução da vida de milhares de vítimas e familiares.

A imprensa também desempenhou papel decisivo. O Globo abriu espaço para campanhas educativas, enquanto publicações como as revistas do Senninha e do Ararajuba levaram mensagens de cidadania e segurança para crianças e adolescentes. A ideia era simples e visionária: formar cidadãos antes mesmo de formar motoristas. Alexandre Garcia foi outro aliado importante dessa causa. Em seus comentários e artigos, manteve a segurança viária em evidência, lembrando diariamente que por trás de cada estatística havia histórias humanas interrompidas.

A mobilização alcançou dimensões raras. A Telebrás incorporou a mensagem do Programa PARE a cartões telefônicos e materiais institucionais. Os Correios aderiram à iniciativa por meio de selos comemorativos e peças especiais que circularam por todo o país. Vistos hoje, esses materiais representam muito mais do que campanhas educativas. São testemunhos de uma época em que o Brasil inteiro foi chamado a refletir sobre o valor da vida.

O momento mais simbólico daquela jornada ocorreu quando a Chama pela Paz nas Estradas chegou a Brasília. Partindo de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, percorreu diversos estados brasileiros reunindo estudantes, professores, profissionais do transporte, policiais rodoviários e cidadãos comprometidos com a causa. Ao alcançar a capital federal, mais de uma centena de pessoas participava da cerimônia. Entre elas estavam familiares e vítimas de trânsito, representantes das polícias rodoviárias e motoristas profissionais. A chama subiu a rampa do Palácio do Planalto conduzida por um taxista do ponto do Aeroporto de Congonhas, maratonista que havia participado da Maratona de Nova York. A cena simbolizava o Brasil real chegando ao centro do poder para afirmar que a preservação da vida Trânsito deveria ser uma prioridade nacional.

Junto com a chama chegou um abaixo-assinado com dezenas de milhares de assinaturas em apoio ao novo Código de Trânsito Brasileiro. Fernando Henrique Cardoso compreendeu o alcance daquele gesto. Dava respaldo a uma ampla mobilização nacional que buscava transformar a relação do país com o trânsito

O novo Código representou um marco histórico. Fortaleceu a educação para o trânsito, aperfeiçoou a responsabilização dos infratores e introduziu uma visão mais moderna sobre a formação de condutores. Entre seus avanços mais relevantes estava a substituição da lógica das antigas autoescolas pelo conceito dos Centros de Formação de Condutores. Não era uma simples mudança de nome. A proposta era afirmar que dirigir exige educação, responsabilidade e consciência cidadã.

Ao lado de Fernando Henrique Cardoso, diversas personalidades contribuíram para transformar essa agenda em realidade. Clóvis Carvalho, então Ministro-Chefe da Casa Civil, teve papel decisivo na articulação política e administrativa do projeto. Pedro Malan ajudou a construir as condições institucionais necessárias à sua implementação. Pelé emprestou seu prestígio a campanhas de mobilização social. Muitos outros poderiam ser lembrados, mas todos compartilhavam a mesma compreensão: a violência no trânsito era um desafio nacional que exigia resposta à altura.

Pouco tempo depois da sanção do Código, a indicação de Clóvis Carvalho para a Direção-Geral do DENATRAN permitiu dar continuidade àquele esforço. O objetivo era transformar os princípios da nova legislação em ações concretas e consolidar uma política de Estado voltada à preservação da vida.

Passadas quase três décadas, parte daquele espírito parece ter se perdido. O trânsito deixou de ocupar posição central na agenda nacional, campanhas educativas tornaram-se mais raras e a formação de condutores passou a ser frequentemente tratada de forma simplificada. A experiência daqueles anos, contudo, permanece atual. Quando educação, formação, fiscalização e mobilização social caminham juntas, as estatísticas respondem. Quando deixam de caminhar, os números voltam a crescer e o preço é pago em vidas humanas.

Ao homenagear Fernando Henrique Cardoso por seus 95 anos, é justo recordar suas contribuições para a estabilidade econômica e para a consolidação institucional do país. Mas também é justo lembrar que houve um período em que seu governo acolheu e impulsionou uma ampla mobilização nacional em defesa da vida no trânsito. A imagem da Chama pela Paz nas Estradas chegando ao Palácio do Planalto permanece como símbolo daquele tempo. Ela representava a convicção de que nenhuma conquista nacional terá verdadeiro significado se não for capaz de proteger aquilo que possuímos de mais precioso: a vida humana. Os resultados alcançados demonstraram que essa não era uma utopia. Quando o Brasil decidiu colocar a vida no centro de suas preocupações, menos brasileiros morreram e mais famílias puderam seguir seu caminho. Talvez este seja um dos legados menos lembrados de Fernando Henrique Cardoso: a compreensão de que nenhuma política pública faz mais sentido do que aquela que preserva vidas.

Fernando Henrique Cardoso durante o período de implantação do novo Código de Trânsito Brasileiro. Sob sua liderança, o país promoveu uma das mais amplas mobilizações nacionais em defesa da vida no trânsito, culminando na sanção do Código de Trânsito Brasileiro e na consolidação de uma política pública que contribuiu para reduzir a mortalidade nas ruas e estradas do Brasil.

JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS

Jornalista, Mtb 0083569 / SP/BR, Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Membro Titular da Academia Brasileira de História, Comendador da Veneranda Ordem dos Cavaleiros da Concórdia, foi Prof. Adj. Dr. da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, ex-Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN, Secretário-Executivo do GERAT da Casa Civil da Presidência da República, Conselheiro Consultivo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito – MONATRAN e TWO FLAGS POST – Publisher & Editor-in-Chief.