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Na contramão da segurança viária
27 de Janeiro, de 2026
Palavra do Presidente
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By ROBERTO ALVAREZ BENTES DE SÁ
Na contramão da segurança viária

Os números divulgados pela Polícia Rodoviária Federal ao final do último período de festas não deixam espaço para interpretações complacentes. Dezoito pessoas morrendo por dia nas rodovias brasileiras não é um efeito colateral inevitável do aumento do fluxo de veículos, mas o reflexo direto de escolhas individuais perigosas somadas a decisões institucionais que caminham na direção oposta da prevenção.

Diante desse cenário, o MONATRAN - Movimento Nacional de Educação no Trânsito manifesta profunda preocupação com o momento em que o país opta por flexibilizar regras relacionadas à obtenção e à renovação da Carteira Nacional de Habilitação. Enquanto os dados oficiais escancaram a imprudência como fator central da violência no trânsito, o debate regulatório parece ignorar evidências consolidadas sobre comportamento humano, percepção de risco e capacidade de resposta dos condutores.

O trânsito brasileiro segue sendo marcado pelo excesso de velocidade, pela combinação álcool e direção e pelo desrespeito sistemático às normas básicas de circulação. Esses comportamentos não surgem de forma espontânea. Eles são influenciados por uma cultura permissiva, por fiscalização insuficiente e, sobretudo, pela fragilização de mecanismos que deveriam atuar como filtros de segurança, como as avaliações médicas e psicológicas no processo de habilitação.

Para o MONATRAN, tratar a CNH como mera formalidade administrativa é um equívoco grave. A habilitação é, antes de tudo, um instrumento de proteção coletiva. Cada etapa do processo existe para reduzir riscos, identificar limitações e garantir que quem assume o volante tenha condições mínimas de conduzir com responsabilidade em um ambiente compartilhado e altamente vulnerável.

A narrativa da desburocratização e da redução de custos ignora uma conta muito mais pesada, paga diariamente pela sociedade. Cada acidente grave gera impactos diretos no sistema de saúde, na previdência social e na estrutura familiar das vítimas. O que se economiza na flexibilização de regras retorna multiplicado em internações, reabilitações, invalidez permanente e mortes evitáveis.

Os dados estaduais reforçam que o problema não está restrito a regiões específicas, mas é estrutural. A velocidade incompatível com a via continua sendo banalizada, mesmo sabendo-se que ela potencializa a gravidade dos sinistros e reduz drasticamente as chances de sobrevivência. Em um contexto assim, afrouxar exigências é sinalizar tolerância ao risco.

O MONATRAN defende que a segurança viária seja tratada como política de Estado, sustentada por evidência técnica, responsabilidade institucional e compromisso ético com a preservação da vida. Avaliações médicas e psicológicas não são obstáculos ao direito de dirigir, mas ferramentas essenciais de prevenção, capazes de identificar condições que comprometem atenção, reação e julgamento - fatores diretamente ligados aos sinistros mais graves.

Persistir na flexibilização das regras da CNH em um país que já convive com uma tragédia diária nas estradas é seguir na contramão da segurança viária. O alerta está dado pelos números. Ignorá-lo é assumir, conscientemente, o risco de continuar perdendo vidas que poderiam e deveriam ser preservadas.

ROBERTO ALVAREZ BENTES DE SÁ

Presidente do MONATRAN - Movimento Nacional de Educação no Trânsito