Março chega com a conhecida sensação de dever cumprido do contribuinte e a igualmente conhecida frustração de quem percorre as ruas e estradas brasileiras. IPVA sendo quitado, IPTU reajustado, combustíveis fortemente tributados, pedágios renovados e uma longa lista de encargos invisíveis que se acumulam no custo de cada deslocamento. Pagamos muito para nos mover e, paradoxalmente, movemo-nos cada vez pior.
A mobilidade urbana, que deveria refletir a eficiência do Estado, transformou-se em espelho de sua incapacidade de planejamento. A carga tributária brasileira gira em torno de um terço do PIB, patamar próximo ao de países desenvolvidos, porém sem a correspondente contrapartida em serviços públicos. No transporte, a discrepância é evidente. O cidadão paga tributos diretos e indiretos para circular, mas enfrenta vias deterioradas, transporte coletivo irregular e um ambiente viário hostil e inseguro.
No cotidiano do trabalhador, o impacto ganha dimensão concreta. Dados recentes indicam que o tempo médio de deslocamento casa-trabalho nas regiões metropolitanas brasileiras supera uma hora por trajeto e, em grandes capitais, aproxima-se de noventa minutos. Trata-se de um tributo invisível, cobrado em fadiga, estresse e perda de qualidade de vida, que se soma aos impostos formais.
A contradição torna-se dramática quando se cruzam arrecadação e segurança viária. O Brasil registra anualmente algo entre trinta e trinta e cinco mil mortes no trânsito e mais de duzentos mil feridos, com custos econômicos que ultrapassam cinquenta bilhões de reais por ano. O peso desses acidentes recai sobre o sistema público de saúde, a previdência e as famílias, demonstrando que a arrecadação não se converte, na mesma proporção, em proteção à vida. Pagamos duas vezes, em tributos e em sofrimento humano.
A precariedade dos serviços reforça a percepção de abandono. O atendimento pós-acidente permanece desigual, a fiscalização irregular e a engenharia de tráfego incapaz de acompanhar o crescimento das cidades. Persistem soluções simplistas e de curto prazo. O alargamento de vias continua a ser apresentado como resposta universal aos congestionamentos, apesar de evidências consolidadas de que mais espaço para carros gera mais tráfego e reproduz o problema em escala ampliada.
O caso da SC-401, em Florianópolis, ilustra esse equívoco. Intervenções pontuais tentam aliviar gargalos históricos, mas não enfrentam a raiz do problema, que envolve planejamento territorial, integração modal e transporte coletivo eficiente. Sem visão sistêmica, obras custosas tornam-se paliativos incapazes de produzir ganhos duradouros.
À medida que o calendário eleitoral se aproxima, a mobilidade e a segurança viária precisam ocupar o centro do debate público. O eleitor que paga impostos tem o direito de exigir mais do que promessas episódicas. A mobilidade não é tema periférico. É elemento estruturante da qualidade de vida, da produtividade econômica e da preservação da vida humana.
Jornalista, Mtb 0083569 / SP/BR, Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Membro Titular da Academia Brasileira de História, Comendador da Veneranda Ordem dos Cavaleiros da Concórdia, foi Prof. Adj. Dr. da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, ex-Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN, Secretário-Executivo do GERAT da Casa Civil da Presidência da República, Conselheiro Consultivo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito – MONATRAN e TWO FLAGS POST – Publisher & Editor-in-Chief.