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O Preço da Vitória
30 de Outubro, de 2026
Artigo
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By JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS
O Preço da Vitória

Há vitórias que carregam em si responsabilidades maiores do que a própria conquista. Pirro, rei do Épiro, compreendeu isso no século III antes de Cristo, depois de vencer os romanos ao custo de perdas tão elevadas que comprometeram suas próprias forças. A História preservou sua advertência, lembrando que nem toda vitória representa, necessariamente, um triunfo duradouro.

A reflexão parece especialmente oportuna. Vivemos tempos em que as divergências políticas desafiam a confiança nas instituições e exigem de todos serenidade e respeito. A legitimidade democrática se fortalece pela transparência, pela igualdade de tratamento e pela observância das liberdades asseguradas pela Constituição.

É preocupante quando o exercício da oposição desperta receios quanto às suas consequências. O Estado de Direito deve oferecer segurança a todos, inclusive àqueles que discordam de quem exerce o poder. A democracia não exige unanimidade, mas respeito às regras e às garantias que permitem a livre manifestação das diferentes correntes de pensamento.

Para quem dedicou a vida ao jornalismo e à educação, a liberdade de expressão é tão necessária quanto o ar. A Constituição não foi escrita para proteger apenas o pensamento conveniente. O respeito à autoridade não dispensa o direito de criticá-la, assim como a defesa das instituições não afasta questionamentos legítimos.

O trânsito, ao qual dediquei parte importante de minha vida, oferece uma comparação esclarecedora. Seguimos caminhos distintos, mas devemos respeitar as mesmas regras. Quando o motorista perde a confiança na sinalização, instala-se a insegurança. Quando o cidadão perde a confiança nas instituições, as consequências alcançam toda a sociedade.

Também no trânsito, resultados aparentemente favoráveis nem sempre traduzem conquistas efetivas. Celebram-se autuações e indicadores administrativos enquanto famílias continuam perdendo seus entes queridos. A verdadeira medida do êxito está na preservação de vidas. Na vida pública, igualmente, os resultados devem ser acompanhados da responsabilidade de preservar direitos e fortalecer a confiança coletiva.

Pacificar os espíritos exige respeito às diferenças. Na democracia, reconhecer resultados legitimamente alcançados não significa renunciar ao direito de questionar e discordar. A convivência civilizada depende do respeito mútuo, pois nenhuma sociedade prospera quando transforma adversários em inimigos.

O Brasil precisa reencontrar a serenidade necessária para conviver com suas diferenças. Vencer é importante, mas saber preservar os valores que sustentam a vida em sociedade é ainda mais. Afinal, no trânsito como na vida de uma nação, pouco importa quem chega primeiro se, ao final do caminho, perdemos a liberdade, a confiança e o respeito à vida.

JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS

Jornalista, Mtb 0083569 / SP/BR, Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Membro Titular da Academia Brasileira de História, Comendador da Veneranda Ordem dos Cavaleiros da Concórdia, foi Prof. Adj. Dr. da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, ex-Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN, Secretário-Executivo do GERAT da Casa Civil da Presidência da República, Conselheiro Consultivo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito – MONATRAN e TWO FLAGS POST – Publisher & Editor-in-Chief.