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Quando o Ego Acelera
26 de Janeiro, de 2026
Artigo
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By JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS
Quando o Ego Acelera

Há comportamentos que se revelam com mais nitidez em determinados períodos do ano. O verão é um deles. Estradas cheias, destinos turísticos disputados e uma sensação difusa de permissividade funcionam como lente de aumento para atitudes que, no restante do calendário, passam quase despercebidas. Não é apenas fluxo intenso nem pressa ao volante. É um modo de agir que transforma o trânsito em espaço de afirmação pessoal.

Nesse contexto, o veículo deixa de ser meio e passa a ser mensagem. Potência, cilindrada, velocidade e ruído assumem valor simbólico. Não se trata mais de deslocamento, mas de demonstração. O volante vira instrumento de exibição de um sucesso que precisa ser visto, ouvido e reconhecido.

O trânsito de férias expõe uma face perigosa do que se convencionou chamar de novos ricos. Não como categoria econômica, mas como postura social. O problema não está no patrimônio, mas na atitude. Carros esportivos e motocicletas de alta cilindrada passam a circular como extensões do ego. A estrada deixa de ser espaço compartilhado e se converte em vitrine móvel de poder.

A ostentação, aqui, não é estética. É comportamental. Aparece na velocidade excessiva, na ultrapassagem forçada, na ocupação agressiva das faixas, no desrespeito deliberado às regras mais elementares. O outro deixa de ser cidadão e passa a ser obstáculo. O pedestre vira detalhe. A vida alheia perde centralidade diante da necessidade de impor presença.

Os dados não permitem relativização. O Brasil segue entre os países com maior número absoluto de mortes no trânsito no mundo, com cerca de 35 mil óbitos por ano. Nos meses de verão, especialmente em regiões turísticas, os acidentes graves aumentam. E há um dado recorrente: as vítimas raramente ocupam os veículos mais caros. Morrem motociclistas comuns, pedestres, ciclistas, famílias em carros populares. A desigualdade social também se projeta sobre o asfalto.

Em países que conseguiram reduzir de forma consistente suas taxas de mortalidade no trânsito, a lógica é outra. Na Alemanha, no Japão ou na Suécia, a posse de um veículo potente não autoriza condutas agressivas. Espera-se exatamente o contrário. Quem dispõe de mais recursos sabe que tem mais responsabilidade. Respeitar regras é sinal de maturidade social, não de limitação.

No Brasil, o automóvel de luxo ainda carrega heranças culturais profundas. Funciona, muitas vezes, como extensão simbólica de privilégios históricos. A sensação de impunidade, combinada com fiscalização irregular e uma cultura que confunde sucesso com domínio, cria um ambiente em que potência vira intimidação. O trânsito passa a reproduzir, em escala diária, as distorções estruturais da sociedade.

 

Há algo de essencialmente equivocado nesse modelo de afirmação. A estrada não existe para provar quem pode mais ou quem ocupa mais espaço. Ela existe para garantir que todos cheguem vivos. O progresso de uma sociedade não se mede pelo valor médio de sua frota, mas pela capacidade de conviver no espaço público com limite e respeito.

Quando o ego acelera, o risco deixa de ser individual e passa a ser coletivo. O barulho que antecede muitos desses episódios não anuncia vitória pessoal. Anuncia perigo. Onde a potência se impõe sobre a regra, o desfecho costuma ser estatística, luto e silêncio posterior.

O desafio brasileiro não é apenas técnico nem se resolve apenas com obras ou radares. É cultural. Enquanto o volante for usado como instrumento de afirmação pessoal, e não como responsabilidade social, o verão seguirá sendo estação de risco. E o trânsito continuará refletindo, com precisão incômoda, aquilo que ainda insistimos em não enfrentar como sociedade.

JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS

Jornalista, Mtb 0083569 / SP/BR, Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Membro Titular da Academia Brasileira de História, Comendador da Veneranda Ordem dos Cavaleiros da Concórdia, foi Prof. Adj. Dr. da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, ex-Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN, Secretário-Executivo do GERAT da Casa Civil da Presidência da República, Conselheiro Consultivo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito – MONATRAN e TWO FLAGS POST – Publisher & Editor-in-Chief.