Dentro de poucos meses, o Brasil escolherá o próximo Presidente da República. Mais uma vez, os debates estarão concentrados na economia, na saúde, na segurança pública e nos impostos, nas taxas e na corrupção. Todos são temas importantes. Mas existe uma questão que afeta diariamente milhões de brasileiros e continua praticamente ausente da pauta eleitoral: a formação dos condutores.
O trânsito não começa quando alguém gira a chave do veículo ou aperta o botão de partida. Ele começa muito antes, no processo de aprendizagem. É ali que se formam hábitos, atitudes, reflexos e a percepção de responsabilidade que acompanharão o motorista por toda a vida. Quem recebe autorização para conduzir um veículo não passa a controlar apenas uma máquina. Passa a assumir a responsabilidade pela segurança de todos que circulam ao seu derredor.
Ao observar países que conseguiram reduzir de forma consistente as mortes e lesões no trânsito, encontramos sistemas diferentes, culturas distintas e realidades econômicas variadas. O que não encontramos é descuido com a preparação dos motoristas.
Nos Estados Unidos, o aprendizado costuma ser gradual e supervisionado. Na Inglaterra, os exames são reconhecidos pelo rigor. Na Alemanha, a formação inclui treinamento em diferentes condições de circulação e elevado nível de exigência técnica. França, Portugal e diversas outras nações seguem caminhos semelhantes, sempre partindo da mesma convicção: dirigir exige preparo.
Nenhum desses países melhorou seus índices de segurança ensinando menos. Nenhum transformou a habilitação em simples formalidade burocrática. Ao contrário, compreenderam que a educação do condutor é uma das primeiras e mais importantes barreiras contra acidentes, lesões e mortes.
No Brasil, entretanto, surgem periodicamente propostas para simplificar procedimentos e reduzir exigências sob o argumento de facilitar o acesso à carteira de habilitação. A intenção pode parecer positiva, especialmente para quem enfrenta dificuldades econômicas. Mas é justamente nesse ponto que a sociedade precisa refletir com mais cuidado.
O trânsito cobra suas próprias contas. Quando a formação é insuficiente, a aparente economia desaparece rapidamente e reaparece nas emergências dos hospitais, nas estatísticas de acidentes e nos prejuízos materiais e humanos.
É verdade que os veículos modernos incorporam tecnologias cada vez mais sofisticadas. Freios mais eficientes, sensores, assistentes eletrônicos e sistemas inteligentes ajudam a reduzir riscos. Mas nenhum equipamento substitui completamente a capacidade humana de avaliar situações, antecipar perigos e tomar decisões corretas em frações de segundo. A tecnologia auxilia, mas preparação do condutor continua sendo indispensável.
Ao escolhermos o próximo Presidente da República, vale lembrar que trânsito não é apenas transporte. É saúde, segurança, educação, produtividade e respeito à vida. Se desejamos um Brasil mais seguro e mais civilizado, essa discussão não pode continuar estacionada à margem das eleições.
Antes de perguntar quem governará o país pelos próximos quatro anos, talvez devêssemos questionar quais candidatos compreendem que a formação de bons motoristas não é um gasto. É um investimento permanente na proteção da vida e no futuro da nação.
Jornalista, Mtb 0083569 / SP/BR, Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Membro Titular da Academia Brasileira de História, Comendador da Veneranda Ordem dos Cavaleiros da Concórdia, foi Prof. Adj. Dr. da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, ex-Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – DENATRAN, Secretário-Executivo do GERAT da Casa Civil da Presidência da República, Conselheiro Consultivo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito – MONATRAN e TWO FLAGS POST – Publisher & Editor-in-Chief.