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Trânsito sob tensão
22 de Março, de 2026
Palavra do Presidente
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By ROBERTO ALVAREZ BENTES DE SÁ
Trânsito sob tensão

O estresse deixou de ser um episódio isolado para se tornar companhia constante, inclusive no banco do motorista. Pressões profissionais, problemas pessoais, prazos, cansaço e frustrações diárias entram no carro junto com quem dirige. E, embora muitos não percebam, esse estado emocional altera profundamente a forma de conduzir.

Uma das primeiras mudanças é a redução da tolerância. O semáforo que fecha, o pedestre que atravessa devagar, o carro que demora a arrancar: situações comuns passam a provocar reações desproporcionais. A buzina vira extensão da impaciência. O acelerador substitui o diálogo. Pequenos contratempos ganham dimensão de afronta pessoal.

O estresse também compromete a atenção. O motorista passa a enxergar apenas o que o irrita, deixando de perceber o conjunto do ambiente. Isso reduz a capacidade de antecipar riscos e aumenta decisões impulsivas. Soma-se a isso a distorção da percepção de velocidade e distância: aproximações excessivas, acelerações desnecessárias e manobras feitas com margem mínima de segurança tornam-se mais frequentes.

Sob pressão, o cérebro funciona de maneira mais reativa e menos analítica. Há menos reflexão e mais impulso. No trânsito, onde segundos definem consequências, essa diferença pode ser fatal.

O problema maior é que raramente alguém se reconhece como motorista estressado. A irritação é normalizada. O comportamento agressivo vira “estilo de direção”. E, enquanto isso, dia após dia, ouvimos histórias de brigas no trânsito que começam por motivos banais: uma fechada, uma vaga, uma ultrapassagem... e terminam em agressões, perseguições e, não raro, mortes.

Parece que estamos perdendo algo essencial: a humanidade. O trânsito, que deveria ser espaço de convivência e mobilidade, tem se transformado em campo de batalha. Carros, que deveriam ser instrumentos de deslocamento, tornam-se armas, muitas vezes fatais. A pressa vira justificativa. A intolerância, regra. O outro deixa de ser pessoa e passa a ser obstáculo.

É urgente refletir sobre que tipo de sociedade estamos construindo quando naturalizamos esse cenário. Não se trata apenas de fiscalização ou de punição - embora elas sejam necessárias. Trata-se de mudança cultural. De reconhecer que, ao volante, carregamos responsabilidade coletiva. Cada decisão afeta vidas.

Humanizar o trânsito começa por atitudes simples: respirar antes de reagir, aceitar imprevistos, planejar melhor o tempo, reduzir expectativas irreais. Começa por lembrar que todos têm destino, família, fragilidades. Que ninguém sai de casa para ser alvo de agressividade.

No trânsito, não basta que o veículo esteja em boas condições. O motorista também precisa estar. Se quisermos um trânsito mais seguro, precisamos antes de tudo de um trânsito mais humano. E essa mudança começa dentro de cada um de nós.

ROBERTO ALVAREZ BENTES DE SÁ

Presidente do MONATRAN - Movimento Nacional de Educação no Trânsito