No dia 13 de maio, a Ponte Hercílio Luz completou 100 anos. Mais do que um cartão-postal de Florianópolis, a estrutura atravessou o século como testemunha silenciosa das transformações políticas, urbanas e sociais de Santa Catarina. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1998, ela permanece como uma das obras mais simbólicas da engenharia brasileira - não apenas pela imponência, mas pelo significado que acumulou ao longo do tempo.
Quando começou a ser construída, ainda na década de 1920, durante o governo de Hercílio Luz, a ponte representava um gesto de ousadia. Florianópolis vivia uma condição de relativo isolamento, dependente de embarcações para a travessia entre ilha e continente. A ligação permanente não era apenas uma necessidade logística: era uma tentativa de integrar o estado ao próprio futuro.
Inaugurada em 13 de maio de 1926, a Hercílio Luz rapidamente se transformou em símbolo de modernidade. Com mais de 800 metros de extensão e considerada uma das maiores pontes pênseis do mundo na época, tornou-se referência de engenharia em um Brasil que ainda buscava consolidar sua infraestrutura. As peças vieram dos Estados Unidos por navio, e a execução ficou a cargo da American Bridge Company. Mas o que parecia apenas uma grande obra pública acabou se tornando algo maior: uma marca emocional para gerações inteiras.
Ao longo do século, a ponte deixou de ser apenas um caminho físico entre ilha e continente. Tornou-se parte da identidade catarinense. Sua imagem passou a sintetizar Florianópolis, acompanhando o crescimento da cidade, a expansão urbana e as mudanças na mobilidade da capital. Também ajudou a consolidar politicamente Florianópolis como sede administrativa do estado, em um período em que existiam discussões sobre a transferência da capital para regiões mais acessíveis do território catarinense.
Com o passar das décadas, vieram o desgaste, a maresia e o peso de uma cidade em transformação. Em 1982, a ponte foi interditada para veículos. Pouco depois, também deixou de receber pedestres. Durante anos, a Hercílio Luz permaneceu fechada, quase imóvel diante da cidade que continuava crescendo ao seu redor. O abandono alimentou o temor de perda definitiva de um dos maiores símbolos de Santa Catarina.
Ainda assim, mesmo deteriorada, a ponte nunca deixou de ocupar um espaço afetivo na memória coletiva. Movimentos da sociedade civil, especialistas e órgãos públicos insistiram na necessidade de preservação. Não se tratava apenas de recuperar uma estrutura metálica, mas de proteger um patrimônio simbólico que ajudava a contar a história da capital catarinense.
O tombamento federal pelo Iphan, em 1998, consolidou esse entendimento. As obras de restauração que se intensificaram a partir dos anos 2000 envolveram desafios técnicos complexos, incluindo recuperação das torres, reforço das fundações e substituição das barras de olhal, peças fundamentais da sustentação da estrutura. O processo mobilizou engenheiros, especialistas em patrimônio e empresas nacionais e internacionais.
A reabertura, em dezembro de 2019, teve um significado que ultrapassou a mobilidade urbana. A Hercílio Luz voltou a cumprir sua função prática, ajudando novamente na ligação entre ilha e continente, mas também devolveu aos catarinenses um símbolo que parecia perdido. Em uma cidade marcada diariamente pelos desafios do trânsito e da mobilidade, a ponte retomou sua presença não apenas como monumento histórico, mas como parte viva da rotina urbana.
Ao completar 100 anos, a Hercílio Luz continua representando muito mais do que engenharia. Ela resume ideias de permanência, reconstrução e pertencimento. Sobreviveu ao tempo, às crises estruturais e ao risco de desaparecer. E talvez seja justamente isso que a transforme em algo tão raro: uma obra pública que deixou de ser apenas infraestrutura para se tornar memória coletiva.
Depois de um século, a ponte segue de pé como poucas estruturas no Brasil: útil, histórica e emocionalmente indispensável para Santa Catarina.