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04 de Janeiro, de 2026
Artigo
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By JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS
QUANDO O VOLANTE VIRA VOTO

Há temas que retornam ciclicamente ao debate público brasileiro como se fossem novidades, quando na verdade revelam uma antiga dificuldade nacional de lidar com planejamento, responsabilidade e consequências. A formação do condutor é um desses temas. Volta à cena, agora embalada por discursos de simplificação e economia, a proposta de eliminar a obrigatoriedade das autoescolas no processo de habilitação. A pergunta que se impõe não é apenas se a medida reduz custos, mas se ela contribui para salvar vidas ou apenas para ganhar aplausos fáceis em ano eleitoral.

O trânsito é um dos mais claros espelhos de uma sociedade. Onde há respeito às regras, à vida e ao outro, os índices de violência viária tendem a cair. Onde prevalece a improvisação, a tolerância com a infração e a crença de que cada um resolve por si, o resultado costuma ser o oposto. Não por acaso, os países mais seguros no trânsito tratam a habilitação como um processo sério, progressivo e culturalmente valorizado.

Nos Estados Unidos, frequentemente citado de forma superficial, a habilitação não é um ato isolado, mas um percurso. Em muitos estados, especialmente para jovens condutores, há fases obrigatórias, horas mínimas de prática supervisionada, restrições iniciais de horário e passageiros, além de forte responsabilização dos pais ou responsáveis. A autoescola não é o centro do sistema, mas o rigor na avaliação e no cumprimento das regras é inegociável. Quem infringe perde pontos, privilégios e, em casos recorrentes, o direito de dirigir.

No Japão, a lógica é ainda mais clara. Conduzir um veículo é um privilégio que exige preparo técnico, disciplina emocional e compreensão profunda das normas. O processo é caro, longo e exigente. Inclui aulas teóricas detalhadas, treinamento prático intensivo em ambientes controlados e avaliações rigorosas. Não há espaço para improviso, tampouco para atalhos. O resultado está nos números, entre os menores índices de mortes no trânsito do mundo.

A Alemanha segue caminho semelhante. A formação do condutor é tratada como parte da educação cívica. A exigência técnica é elevada, o treinamento é extenso e a avaliação é severa. Não se trata apenas de saber operar um veículo, mas de compreender riscos, limites e responsabilidades. A famosa eficiência alemã no trânsito não nasce da ausência de regras, mas do respeito a elas desde a formação inicial.

Esses exemplos ajudam a desmontar uma falsa dicotomia que vem sendo apresentada no Brasil, como se a existência de autoescolas fosse o problema em si. O debate sério não é eliminar estruturas, mas qualificá-las. O que precisa ser enfrentado são falhas de fiscalização, disparidades regionais, custos mal explicados, eventuais distorções no sistema e, sobretudo, a cultura da habilitação como mero documento, e não como compromisso com a vida.

Transformar a habilitação em um processo informal, transferindo toda a responsabilidade para o indivíduo, pode parecer moderno, mas ignora uma realidade brasileira marcada por profundas desigualdades educacionais, sociais e culturais. Em um país onde ainda lutamos para consolidar o respeito às leis mais básicas de convivência, flexibilizar sem fortalecer pode significar retroceder.

Esse debate ganha contornos ainda mais delicados quando ocorre às vésperas de um período crítico. As festas de fim de ano e as férias trazem consigo aumento significativo do fluxo de veículos, longas viagens, cansaço acumulado, consumo de álcool e uma perigosa sensação de urgência para chegar. É nesse contexto que pequenos descuidos se transformam em tragédias irreversíveis.

Vale lembrar, com serenidade e firmeza, que dirigir é um ato coletivo. Cada decisão ao volante afeta não apenas quem conduz, mas famílias inteiras, pedestres, ciclistas e outros condutores que jamais escolheram participar de um erro alheio. Reduzir a formação, relativizar o preparo ou tratar a habilitação como detalhe burocrático cobra seu preço justamente nos momentos em que mais precisamos de prudência.

O Brasil já pagou caro demais pela combinação de improviso, pressa e descaso no trânsito. Avançar exige menos slogans e mais responsabilidade. Exige aprender com quem faz melhor, adaptar boas práticas à nossa realidade e, sobretudo, lembrar que políticas públicas sérias não se medem pelo aplauso imediato, mas pelas vidas preservadas ao longo do tempo.

Que este período de festas e deslocamentos seja também um convite à reflexão. A melhor viagem é sempre aquela que termina com todos chegando em casa. E isso começa muito antes da estrada, começa na forma como escolhemos formar, habilitar e conscientizar quem segura o volante.