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O efeito “Transformers” em trânsito

julho/2018 - Espaço Livre

A partir dos anos que dediquei ao trânsito e à Psicologia, através de incontáveis experiências e reflexões e com o recurso de algumas obras cinematográficas e televisivas com as quais tive contato ao longo da minha vida, criei um ENSAIO SOBRE A HUMANIZAÇÃO DA MÁQUINA E A MECANIZAÇÃO DO HUMANO. Pensei no termo “Transformers” como forma de problematizar e discutir a respeito de um fenômeno recorrentemente observável nessa área. A analogia se refere à ficção criada em 1984 que conta a história de robôs alienígenas que possuem a habilidade de transformarem seus corpos em objetos inanimados como veículos, por exemplo.

Tal relação me parece bastante apropriada, concordando com o posicionamento de Fernanda de Souza da Costa e Silva em sua dissertação, HOMEM-MÁQUINA: imaginários tecnológicos e reinvenções do corpo e da mente, quando afirma que, tendo como base os meios comunicacionais e artísticos, através de amostras de produções literárias, cinematográficas e televisivas, o homem demarca e remarca sua posição no mundo. Esses tipos de obras, particularmente falando, sempre me proporcionaram importantes contribuições reflexivas a respeito das formas que nos portamos e do espaço que ocupamos no mundo. Portanto, creio que essas tecnologias semióticas, sejam elas literárias, cinematográficas ou televisivas, são de grande importância, pois auxiliam como “dispositivos de produção de mitos, visões de mundo e de estilos de vida”.

O título, a princípio, foi pensado como O efeito “Transformers” no trânsito, utilizando a combinação de preposição e artigo como simples forma de definir o universo no qual tal efeito fora observado. No entanto, com alguma reflexão, tal uso me pareceu um tanto quanto simplório diante da diversidade de sentidos que a palavra “trânsito” suscita. Além de um local destinado à locomoção, não só de veículos, mas de pessoas, o termo ainda traz consigo alguns outros importantes sentidos. Dessa forma, o termo “em trânsito” me pareceu mais adequado por dar a impressão de movimento, de mudança, de transformação. Assim, ao efeito observado, se dá o caráter de algo que não está dado, mas que vem se configurando, que está em trânsito, em transformação, para o qual se pode inferir um ponto de partida, mas não tem necessariamente um destino ou um fim que se possa predizer ou premeditar como sendo seu ápice.

Para melhor ilustrar tal relação, o presente ensaio foi construído a partir de duas linhas centrais, que seguem paralelamente, entretanto em sentidos opostos, como vias de mão dupla. De um lado dessa via transita um ser humano “mecanizado”, seja no sentido físico do termo, ou seja, onde, a partir dos crescentes avanços tecnológicos, o homem dispõe da possibilidade cada vez maior de utilizar desses recursos tecnológicos em prol do seu bem estar; ou seja, no sentido subjetivo, quando se percebe uma sociedade cada vez mais homogeneizada, com padrões individualistas e competitivos, intolerante às diferenças, que no trânsito, se não ignora, vê como inimigo o condutor ao lado e, por isso, torna-se incapaz de ter sentimentos como empatia, compaixão ou mesmo respeito para com o outro.

De outro lado o veículo, que de simples ferramenta ou utensílio destinado à locomoção e transporte, passou a tomar status socialmente diferenciado, ao passo que alguns autores chegam a apontá-lo como um prolongamento do próprio corpo do condutor. Neste sentido vou mais adiante, permitindo-me afirmar que, com a cultura midiática capitalística que se formou em torno do automóvel, com os crescentes e constantes implementos tecnológicos aos quais esses mesmos veículos são submetidos e, principalmente, com o advento da Robótica e da Inteligência Artificial, ele está cada dia mais humanizado. Desta forma, se o que a priori diferenciava o sujeito humano da máquina era a capacidade de apresentar sentimentos, este limiar passa a ser cada vez mais tênue, criando no abismo existente entre homem e máquina um movimento convergente que tem os aproximado a cada dia.

Em suma, esse ensaio tem como objetivos, além de uma crítica às atuais contribuições (ou falta delas) da Psicologia para com a área do trânsito, a problematização da relação entre sujeito humano e máquina – mais especificamente o carro, os processos de subjetivação derivados dessa relação e suas consequências para o trânsito. Diante do atual cenário tecnológico, já não me parece mais possível discernir “onde termina o humano e onde começa a máquina?” Ou ainda: “onde termina a máquina e onde começa o humano?”. A existência do ciborgue não nos intima a questionar sobre a natureza das máquinas, mas sim sobre a natureza do humano: afinal, quem somos nós?

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Rodrigo Vargas de Souza
Formado em Psicologia pela Unisinos, atua desde 2009 como Agente de Fiscalização de Trânsito e Transporte na EPTC, órgão Gestor do trânsito na cidade de Porto Alegre.

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